Sociólogo abriu o ciclo Diálogos IJF e apontou cinco mudanças estruturais que exigem um Estado forte, inovação produtiva e justiça fiscal
As conquistas recentes na reconstrução de políticas públicas e na retomada do papel do Estado são importantes, mas estão longe de responder à profundidade das transformações que já remodelam o Brasil e o mundo. O alerta foi feito pelo sociólogo Clemente Ganz Lúcio durante a abertura do ciclo Diálogos IJF, promovido pelo Instituto Justiça Fiscal (IJF) na noite desta terça-feira (16).
Integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República e coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, Ganz sustentou que o país precisa olhar além da recuperação dos desmontes ocorridos entre 2016 e 2022 e construir um projeto nacional capaz de responder aos desafios tecnológicos, climáticos, demográficos, geopolíticos e democráticos que marcam o século XXI.
“Estamos vivendo transformações profundas que rompem padrões econômicos, sociais e ambientais conhecidos. Não basta reparar os danos recentes. Precisamos compreender essas mudanças e construir uma estratégia de desenvolvimento capaz de responder a elas”, afirmou.
Segundo o sociólogo, cinco grandes processos estão alterando simultaneamente a vida econômica e social. O primeiro deles é a transformação tecnológica, impulsionada pela inteligência artificial e por sistemas capazes de processar informações e tomar decisões de forma autônoma. Para ele, trata-se de uma mudança comparável às maiores revoluções produtivas da história, com impactos diretos sobre o trabalho, as relações sociais e a própria organização da economia.
A segunda transformação é a crise climática. Ganz destacou que os efeitos do aquecimento global já superam previsões consideradas pessimistas há poucos anos. Secas prolongadas, enchentes e eventos extremos passaram a fazer parte da realidade, exigindo novas estratégias de desenvolvimento e adaptação.
A mudança demográfica aparece como o terceiro grande desafio. O envelhecimento da população e a redução das taxas de natalidade devem levar o Brasil a uma trajetória de crescimento populacional cada vez menor, impondo desafios à produtividade, à previdência e às políticas de proteção social.
No cenário internacional, a reorganização geopolítica da produção e a disputa industrial entre grandes potências constituem a quarta transformação. Para Ganz, o mundo vive um movimento de reindustrialização e redefinição das cadeias produtivas globais, criando oportunidades e riscos para países como o Brasil.
O quinto processo é o avanço da extrema direita em diversas partes do mundo. O sociólogo alertou para os impactos da concentração de riqueza sobre a democracia e para o fortalecimento de discursos autoritários que enfraquecem instituições, direitos e mecanismos de participação social.
Agregar valor para gerar desenvolvimento
Ao analisar a posição brasileira diante dessas mudanças, Ganz defendeu uma estratégia voltada ao aumento da produtividade, à agregação de valor e à geração de empregos qualificados.
“O Brasil não pode se contentar em exportar matéria-prima. Precisamos produzir conhecimento, tecnologia, produtos e serviços de maior valor agregado”, afirmou.
Ele citou áreas em que o país possui vantagens competitivas, como saúde, energias renováveis, produção de alimentos e minerais estratégicos, mas ressaltou que transformar potencial em desenvolvimento exige investimento contínuo em ciência, pesquisa e inovação.
Nesse processo, atribuiu ao Estado um papel central de planejamento, coordenação e financiamento. Para o sociólogo, o mercado, sozinho, não promove as transformações necessárias para uma economia mais sofisticada, sustentável e socialmente inclusiva.
“Pesquisa, inovação, crédito, política industrial e financiamento são instrumentos estratégicos para qualquer projeto nacional de desenvolvimento”, argumentou.
Justiça fiscal como condição para o futuro
Ao longo da exposição, Ganz relacionou a agenda do desenvolvimento à necessidade de fortalecer a capacidade de investimento público. Segundo ele, a construção de uma economia mais dinâmica exige ampliar investimentos em infraestrutura, educação, saúde, cuidados e proteção social.
O sociólogo observou que o Brasil investe atualmente cerca de 17% do PIB, percentual insuficiente para sustentar um ciclo robusto de transformação econômica. Também chamou atenção para a situação de milhões de trabalhadores sem proteção previdenciária e trabalhista, em um contexto marcado pela expansão da pejotização e das plataformas digitais.
Nesse cenário, defendeu uma reforma tributária mais progressiva e mecanismos de financiamento capazes de sustentar o papel estratégico do Estado.
“A agenda da justiça fiscal é fundamental. As mudanças recentes são importantes, mas insuficientes. Precisamos avançar na tributação progressiva para garantir capacidade de financiamento das políticas públicas e do desenvolvimento”, afirmou.
Movimento sindical diante de uma nova realidade
Durante o debate conduzido por Paulo Gil, diretor do Instituto Justiça Fiscal, Ganz também refletiu sobre os desafios do movimento sindical. Segundo ele, as organizações dos trabalhadores precisam se reinventar diante das novas formas de contratação, da plataformização da economia e das mudanças tecnológicas.
Para o sociólogo, a defesa de melhores salários, redução da jornada, proteção previdenciária e direitos trabalhistas continua atual, mas requer novas formas de organização e representação.
Ele citou como exemplo a recente ampliação do debate sobre a redução da jornada de trabalho e a proposta de isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil, demonstrando que mudanças consideradas improváveis podem ganhar força quando conectadas às demandas concretas da população.
Ao encerrar sua participação, Ganz afirmou que o Brasil possui condições institucionais e econômicas para construir um novo ciclo de desenvolvimento, mas que isso depende da capacidade de mobilização da sociedade e da construção de consensos democráticos.
“Temos uma oportunidade histórica. Recuperamos capacidades importantes, mas ainda há muito a construir. Precisamos de uma agenda positiva, de esperança e transformação. A sociedade espera isso de nós”, concluiu.