Cortar impostos leva necessariamente a crescimento econômico?

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De acordo com muitas reportagens, Donald Trump está ficando frenético à medida que se aproxima seu 100º dia de governo. É um marco arbitrário, mas ele mesmo se vangloriou do que realizaria nesse prazo, em muitos pronunciamentos anteriores à sua posse. E o dia servirá como ocasião para numerosas reportagens que detalharão quão pouco ele realizou de substancial.

Mas muitas dessas reportagens desconsiderarão uma parte importante da história, em minha opinião. É importante apontar para a completa falta de realizações do comandante em chefe do Twitter; mas também precisamos nos concentrar em o que, exatamente, ele não realizou.

Pois Trump se vendeu aos eleitores como a um só tempo heterodoxo e efetivo. Ele seria um tipo diferente de presidente, um negociador talentoso que transcenderia as divisões ideológicas usuais. Seus partidários deveriam estar decepcionados não só com seu fracasso em negociar qualquer acordo mas com o fato de que ele evidentemente não têm ideias novas a oferecer, e repete as mesmas promessas ilusórias que a direita oferece há décadas.

Foi o que vimos em seu plano de reforma da saúde, quanto ao qual o governo terceirizou as decisões políticas para Paul Ryan, o presidente da Câmara dos Deputados, e recebeu dele exatamente a proposta que seria de esperar: retirar os planos de saúde de milhões de pessoas, piorar a cobertura das demais e usar o dinheiro economizado para cortar os impostos dos ricos. Populismo!

E agora estamos vendo a mesma coisa na política tributária. Trump prometeu anunciar um “imenso” corte de impostos nesta semana. O anúncio aparentemente apanhou de surpresa os funcionários do Departamento do Tesouro, que obviamente não têm um plano pronto. Ainda assim, uma coisa é clara: quaisquer que sejam os detalhes, a proposta de Trump para os impostos será um grande exercício de fantasia econômica.

Como podemos ter certeza disso? Na semana passada, o secretário do Tesouro Stephen Mnuchin disse a uma audiência de financistas que “os custos do plano serão cobertos pelo crescimento”. E todos nós sabemos o que isso significa.

Em 1980, George Bush pai ofereceu uma descrição que se tornou famosa para a teoria econômica do supply side —a promessa de que cortar os impostos dos ricos causará um milagre econômico tão grande que a arrecadação crescerá apesar dos cortes de impostos. Bush definiu a teoria do supply side como “política econômica vodu”. No entanto, ela logo se tornou a doutrina oficial do Partido Republicano, e continua a sê-lo. Isso demonstra um nível impressionante de fidelidade. E o que torna essa fidelidade ainda mais impressionante é que a doutrina foi testada sucessivas vezes —e sempre fracassou.

Sim, a economia dos Estados Unidos se recuperou rapidamente da desaceleração de 1979-82. Mas isso resultou dos cortes de impostos decretados pelo presidente Ronald Reagan ou dos cortes de juros decretados pelo Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos? Bill Clinton ofereceu uma prova clara, ao elevar os impostos dos ricos. Os republicanos previram desastre, mas a economia em lugar disso floresceu, criando mais empregos do que os criados na era Reagan.

Em seguida, George Bush filho cortou os impostos de novo, e os suspeitos habituais previram o “boom de Bush”. O que recebemos, em lugar disso, foi crescimento morno seguido de uma severa crise financeira. Barack Obama reverteu muitos dos cortes de impostos de Bush e criou novos impostos para pagar por sua reforma da saúde —e seu governo apresentou desempenho muito superior ao de seu predecessor, no campo do emprego— pelo menos no setor privado.

Assim, a história não oferece prova alguma de que devemos ter fé nos efeitos positivos dos cortes de impostos sobre o crescimento.

E não devemos nos esquecer das experiências recentes em nível estadual. Sam Brownback, governador do Kansas, cortou fortemente os impostos, naquilo que ele definiu como “uma experiência real” da política fiscal conservadora em ação. Mas o crescimento que ele prometeu jamais veio; no lugar dele, veio uma crise fiscal. No mesmo período, Jerry Brown, o governador da Califórnia, aumentou impostos, levando a proclamações, vindas da direita, de que o Estado estava cometendo “suicídio econômico”. Na verdade, a Califórnia registrou crescimento impressionante, no emprego e da economia.

Em outras palavras, a teoria do supply side é um exemplo clássico de doutrina zumbi: uma opinião que deveria ter sido negada pelos fatos há muito tempo, mas continua a cambalear e a devorar os cérebros dos políticos. Por que ela persiste, então? Porque oferece justificativa para cortar os impostos dos ricos – e, como apontou o escritor Upton Sinclair muito tempo atrás, é difícil fazer com que um sujeito compreenda determinada coisa quando seu emprego depende de que ele não a compreenda.

Ainda assim, Donald Trump supostamente deveria ser diferente. Bem, ele não é.

É justo dizer que não se sabe se Trump realmente acredita na ortodoxia econômica da direita. Ele talvez esteja só procurando por alguma coisa, qualquer coisa, que possa alardear como vitória —e é muito mais fácil propor um plano de reforma tributária se você não tenta provar que os números batem e simplesmente presume que crescimento adicional, e a arrecadação que ele traria, surgirão do nada.

Poderíamos também apontar que um sujeito que insiste em que venceu no voto popular apesar de ter perdido, que insiste em que o crime está batendo recordes quando na verdade ele está em queda, não precisa de uma doutrina sofisticada para afirmar que os números de seu orçamento batem mesmo que isso claramente não seja verdade.

Ainda assim, a verdade é que a agenda de Trump até o momento é completamente indistinguível do que poderíamos esperar de alguém como, por exemplo, Ted Cruz. Ela se resume a vodu, com uma dose adicional de péssima matemática. O que mais os partidários de Trump poderiam esperar?


Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/paulkrugman/2017/04/1878062-cortar-impostos-leva-necessariamente-a-crescimento-economico.shtml

 

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